A viagem de ônibus foi contemplativa.
Mas o melhor de tudo é ver as coisas com um outro olhar, outra perspectiva. É encontrar o mágico por trás do mundano e do ordinário. É ver as cores por trás do cinza, ou o vermelho escondido por entre o preto e o branco.
Hoje foi um destes dias em que o portal entre os universos estava aberto e eu pude olhar através dele.
O dia já começou insólito, com uma camada de tinta roxa bem escura pintando o céu da manhã. Aos poucos, foi-se misturando com tinta branca e tornando-se azul marinho, azul escuro, azul e finalmente azul claro. Porém, logo em seguida, derramaram um pote de tinta prateada em cima das nuvens e começou a pingar tinta no chão.
A manhã começou assim: borrada.
Já levada pela insônia kafkiana, comecei a entender e ouvir coisas que sabia que não estavam sendo ditas neste plano. Ouve-se melhor de olhos fechados, pensei.
Acordei, horas depois, com uma mensagem que parecia de outro mundo. Não haverá aula hoje. Neste instante, resolvi entrar naquele ônibus. A tinta amarela do Sol já aguçava o azul do céu e a bagunça cinza da manhã já tinha sido absorvida pelos grandes algodões brancos que agora flutuavam calmamente.
Já no ponto, senti que o dia era especial ao ver a visão da perfeição chegando de mansinho ao meu lado. Ela parou ali e ficou me olhando. O universo sempre me pega de surpresa e eu sempre viro o rosto. Não fiz diferente hoje.
Sabia que nesta linha demoraria para chegar mais onde deveria, mas ignorei o óbvio e segui o certo da voz que cantava em silêncio no meu ouvido. Subi e sentei no primeiro banco vago.
Geralmente, o mundo musical me engole assim que coloco os fones de ouvido e apago ou quase ignoro tudo que me acontece em volta. Não hoje. Hoje, o áudio acrescentou-se cegamente ao visual, tornando tudo sobrenatural, brilhante, claro.
As cores eram mais vivas, as pessoas pareciam mais reais.. diferentes, talvez. O auge chegou em um ponto do Jardim Botânico, enquanto observava os traseuntes, Ewan McGregor e Nicole Kidman cantavam no meu ouvido uma das músicas mais lindas que eu já ouvi e foi desesperador. Foi desesperador sentir tudo aquilo ao mesmo tempo. E foi difícil, admito, segurar as lágrimas.
A lentidão do trânsito servia para aumentar a angústia de quem quer chegar logo em algum lugar e não sabe por que. Lentamente, no entanto, comecei a entender que a lentidão não era lenta, era apenas a velocidade clássica entre um universo e outro. Quando entendi, comecei a observar tudo com outros olhos.
E foi ali: no meio da confusão, do caos, do embolado da saída da maior favela do Rio que encontrei um casal que me fez sorrir. Eram simples, eram inocentes, eram reais. Não estavam fazendo nada de mais; estavam brincando, zoando um com o outro, rindo, se abraçando. Não adianta: não existem palavras para explicar. Como o ditado diz: uma imagem vale mais do que mil palavras. Pena que minha câmera não estava comigo.. Mas, nesta hora, neste exato momentinho, senti o que realmente pode ser chamdo de felicidade. É raro. Sim. É muito raro ter este vislumbre de algo tão puro e saber compreendê-lo.
Sorri por gratidão. Por ter tido a sorte de poder ter visto aquela cena tão.. comum.. banal.. mas tão completa e mágica por essência. E, mais uma vez, sofri para conter as lágrimas. Desta vez, confesso que foi bem mais difícil.
Depois disto, apenas a dor no ombro me incomodava. Eu só queria sair do ônibus para que ela acabasse, como se isso fizesse algum sentido.
Já na entrada da Barra, conheci um Doppelgänger, que fez questão de entrar no meu ônibus e me observar também. Mais um sinal de que o portal entre os universos já está aberto. Paro e penso que o dia 31 está por perto.. deve ser esse o motivo.
A viagem pela praia só me causou curiosidade; não para com a Natureza, mas para com os prédios, edifícios e condomínios pelos quais já passei dezenas de vezes e nunca havia parado para prestar atenção. Pude atingir um outro nível de compreensão apenas observando aquela selva de pedra que contempla o mar.
Um senhor senta ao meu lado só para me incomodar, vejo pessoas indo e vindo.. de todas as idades, raças, gêneros, castas.. todas juntas em um mesmo lugar, um mesmo veículo.. todas na completa paz. O universo está dentro de um ônibus.
E assim, a viagem termina, depois de uma hora e quarenta minutos de viagem - penso que nem foi tanto tempo assim; imaginava ter sido mais. O senhor já havia descido e agora, o Doppelgänger sai do seu lugar e senta-se exatamente ao meu lado. Eu quase rio de tão poético. Soon enough, estamos no meu ponto. E advinha? Sim, o Doppelgänger também desce lá.
Achei aquilo tudo tão surreal e tão perfeito.. tão descritivo e tão meant to be que sorri. O Doppelgänger seguiu sua saga cinematográfica.. talvez até Jacarepaguá.. Vargem Grande.. Campo Grande.. Recreio, quem sabe? Só sei que deixei-a para trás e fui em busca de outro ônibus - um que apenas passa de hora em hora. E, magicamente (é claro) este ônibus passa exatamente dois minutos depois que eu chego no ponto.
Entro e sorrio mais uma vez. Sinto-me em sintonia com tudo e todos. As coisas, neste momento, fazem total sentido e o sol brilha para dizer que o dia terminará azul. Azul como o pote de tinta daquela manhã.