Eztetyka do Sonho
“O artista deve manter sua liberdade diante de qualquer circunstância.”
[Gláuber Rocha, "Eztetyka do Sonho", 1971]
Outro problema grande na indústria cinematográfica brasileira é exatamente a concepção de cinema como indústria e não como arte. Na época do Cinema Novo, fazer filmes viscerais e de cunho político e social era ir de frente contra o conformismo da burguesia brasileira. Hoje, a criação destes tipos de filme parece ser a nova moda do momento. Para ser respeitado hoje, um filme precisa ser sobre favelas ou sobre a miséria nordestina. Não que estas questões não precisem ser colocadas ao mundo ou até retomadas, vistas de diferentes pontos de vista, mas não como uma forma de entretenimento. A violência nas favelas e a pobreza do povo nordestino agora viraram moda; virou divertido idolatrar traficantes de drogas ou capitães Nascimento, repetindo besteiras e ignorando a realidade. É surreal ver este tipo de comportamento com relação a assuntos tão sérios e gritantes de nossa sociedade. Não passa, mais uma vez, da manipulação e conformismo citados por Gláuber há mais de trinta anos atrás; só que agora nossos próprios problemas, nossa própria fome, nossa própria miséria – citados por Gláuber como nossa única e verdadeira fonte de poder – estão sendo usados como armas para transformar todo este horror em ficção científica.
O fato é que enlataram nossa fome. Patentearam-na e agora estão exportando ao mundo, com sorrisos felizes e desavergonhados. Nossa miséria transformou-se em cartão postal. Sendo assim, nada mais lógico do que patentear o cinema desta forma. Os filmes brasileiros (que vão para as salas de cinema) podem ser divididos em duas categorias: os divertidos e fúteis – para a diversão vazia da burguesia enjaulada em seus condomínios e shoppings; e os de cunho social – os levados a sério, mandados para festivais internacionais e consagrados pela crítica mundial. Os primeiros não merecem comentário, já os segundos fazem parte dos criticados acima. Tais filmes são realmente bons e merecem a consagração. O lado positivo deles é a abertura das portas internacionais para o cinema brasileiro. O problema é quando a arte é confinada a um molde. E o cinema brasileiro sério parece ter sido enlatado neste molde social para que só assim tenha chance de chamar atenção além-fronteiras. Isto, além de ser extremamente restritivo, ainda esconde o preconceito com relação à capacidade criativa de nossos artistas, além de oferecer base de apoio ao conformismo em relação às leis do “homem civilizado”.

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